Siga Minha Voz

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Sinopse: Depois de uma crise de saúde que a manteve em casa por 76 dias seguidos, a única coisa que Klara faz é ouvir seu programa favorito de rádio: “Siga Minha Voz”. Um dia, porém, ela se pergunta: é possível se apaixonar por alguém que ela ouviu no rádio mas nunca encontrou? Será que pode ter sentimentos por Kang, o apresentador do programa de rádio?
Direção: Inés Pintor e Pablo Santidrián
Título Original: Sigue mi voz (2025)
Gênero: Romance | Drama
Duração: 1h 41min
País: Espanha | EUA

Siga Minha Voz Imagem do Filme

Quando Chama o Coração

Não podemos dizer que um dos lançamentos da primeira semana de 2026 no catálogo do Amazon Prime Video é uma decepção. Enquanto proposta de filme para adolescentes, “Siga Minha Voz” se vale de métodos fáceis de atenção do seu público-alvo, ao contar a história de Klara (Berta Castañé), uma adolescente com quadro depressivo que luta para sair de casa após mais de dois meses, abalada com a morte de sua mãe.

Ao contrário do cinema indiano contemporâneo, quase sempre bem representado com boas produções na Netflix (dou como exemplo o último filme assistido, “Um Direito Meu“), não costumo dar sorte com o audiovisual espanhol nas plataformas de streaming. Há quase cinco anos (ainda assusta imaginar que a Apostila de Cinema existe há tanto tempo), outra comédia romântica do país trazia de forma um pouco problemática questões envolvendo saúde mental.

Só que, em minhas memórias, “Loucura de Amor” (2021) na Netflix parece ter obtido um resultado mais satisfatório – ou talvez eu estivesse mais condescendente à época. Já a comédia musical “Explota Explota” (2020), também do Prime Video, marcou quase nada e aumentou a sensação de um catálogo enfraquecido do país. Mais uma vez, a adaptação do livro da venezuelana radicada nos Estados Unidos, Ariana Godoy, escrito e dirigido por Inés Pintor e Pablo Santidrián flerta com o risco de romantização de questões mentais que precisam de tratamento. Essa é a quarta adaptação de obras de Godoy, que tem a trilogia “Através da Minha Janela” disponível na Netflix.

Não é apenas religião ou um novo amor que curam quadros depressivos e de Síndrome do Pânico, exatamente o que passa a protagonista. Ela, no curso de seu tratanento, canaliza suas forças para uma transmissão ao vivo diária em rede social de um jovem que usa apenas a voz para dividir suas dores, tocar algumas músicas e compartilhar o desejo de se tornar cantor. Um pouco da forma antiga de ter o rádio ao seu lado de madrugada como companheiro de solidão, mostrando que o comportamento humano não muda tão rápido quanto as novas gerações imaginam.

Ao reiniciar sua rotina na escola, Klara se surpreende ao saber que Kang (Jae Woo Yang), o garoto das lives, é seu colega. Ela agora alimenta o sonho de encontrar o coreano radicado na Espanha sabendo muito mais do que ele. Na turma da menina, Diego (Nuno Gallego) aparece como o inconveniente, mas aos poucos vai encontrando com Klara certa identificação em relação ao passado de perdas na família, transformando o romance em um triângulo. Uma cena deslocada da obra ainda propõe que Kang amplia sua vulnerabilidade quando sua persona virtual está em cena, outra linha de desenvolvimento promissora e totalmente abandonada.

A forma de representação das graves crises de pânico da personagem, deixando o espectador envolvido nos pensamentos intrusivos da adolescente, é interessante no primeiro momento. Porém, os realizadores optam por um conto mais próximo da autoajuda, com capítulos funcionando como “passos” a serem cumpridos para cura da saúde mental. Acaba se tornando simplista e, por vezes, enfadonho – mas provavelmente fiel ao material original e de boa receptividade aos fãs da escritora.

Outra opção que tira força da obra é deslocar boa parte da carga dramática da trama em sequências de flashback acompanhadas da narração de seus agentes. Uma maneira “contada” bem preguiçosa, evitando correr riscos na montagem e perder o espectador adolescente pouco a vontade para se dedicar a apenas uma tela. Resultado da briga por atenção, misturada com narrativas pensadas por algoritmos. Há muitas tags em “Siga Minha Voz”, mas não há muito a falar sobre elas.

Um exemplo é atravessar na história uma mistura de bullying e chantagem de outra aluna, pinçada em duas cenas espaçadas e sem consequências. Outro exemplo é a maneira como um o drama envolvendo a saúde de Klara é revelado, sem qualquer profundidade dramática e frustrante enquanto emoção.

Enfim, “Siga Minha Voz” não é nada além do que se propõe, só que não duvido que exatamente aquilo que o público-alvo queria enquanto aguardava da chegada da produção ao streaming. Todavia, deve decepcionar o espectador-médio ao inserir tantas questões, porém não transformar nenhuma em drama envolvente ou capaz de desenvolver seu próprio romance a partir da montanha-russa de crises e perdas de seus protagonistas.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.