Hora do Recreio

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Sinopse: Partindo de uma pesquisa realizada com professores da rede pública, o projeto une debates com alunos adolescentes em sala de aula e uma dramatização baseada no livro Clara dos Anjos, de Lima Barreto.
Direção: Lucia Murat
Título Original: Hora do Recreio (2025)
Gênero: Documentário
Duração: 1h 23min
País: Brasil

Hora do Recreio 2025 Documentário Brasileiro Crítica do Filme

Sem Tempo para Brincadeira

Hora do Recreio”, mais novo documentário de Lucia Murat e premiado na mostra Generation do Festival de Berlim, parte da ideia de uma releitura de “Clara dos Anjos”, clássico literário póstumo de Lima Barreto, para apresentar novas gerações e o peso de suas consciências, em debates promovidos em salas de aula em escolas públicas de comunidades do Rio de Janeiro. Com a equipe de atores dos grupos cariocas Nós do Morro, VOZES e Instituto Arteiros, o filme é uma junção de documentação e performance que, apesar de não inovar na temática, ainda é capaz de sensibilizar a plateia.

A adaptação do livro de Barreto só existirá na parte final. A cineasta transforma a construção do filme em um registro do próprio processo. Utilizando técnicas documentais consagradas na produção nacional, sobretudo de Eduardo Coutinho, passando pela própria Lucia Murat, usa a metalinguagem como ferramenta de seu desenvolvimento. Com isso, a primeira sequência, na qual alunos do ensino médio contam suas vivências, é interrompido pela revelação da câmera e o discurso de agradecimento da diretora.

A realidade de violência contra mulheres e de reprodução do racismo é a marca de “Hora do Recreio” desde o início. Depoimentos fortes dos adolescentes e crianças sobre o histórico de agressões na família e preconceitos sofridos ganham a tela e há um peso muito grande nas suas falas. Provocados por professores facilitadores, alguns dos alunos não poupam críticas ao espaço escolar, um território que deveria ser uma zona de segurança para a formação dos futuros adultos.

Não é isso que fica registrado pela realizadora, que expõe o impedimento da Secretaria de Educação, não autorizando o uso do espaço letivo para a gravação. Na variação com a ocupação das câmeras nas salas de aula, performances interessantes utilizando máscaras carregadas de simbolismo e movimentos que remetem a uma memória corporal que nem o mais eficiente laboratório de atores consegue alcançar, sendo necessária a incontestável vivência daqueles agentes e dos grupos radicados nas maiores comunidades do Rio de Janeiro, como Vidigal e Cidade de Deus.

Até este momento, a condução do longa-metragem é a mistura desse olhar observador, no espaço da sala de aula (tal como “Atravessa a Vida” e “Espero Tua (Re)Volta”, que se destacaram na última década), com a câmera-personagem. Todavia, a metalinguagem volta ao documentário quando, enfim, a representação de Clara dos Anjos é pensada. Momento em que existirá uma nova construção coletiva, com os jovens interpretando e adaptando para a realidade deles a narrativa de Lima Barreto. Colocando Cassi Jones nos espaços que ele hoje ocuparia e as consequências de seus atos sobre Clara e sua mãe, por exemplo.

Um diálogo que vai desde “Salve o Cinema” (1995), clássico iraniano do gênero dirigido por Mohsen Makhmalbaf até “Maré, Nossa História de Amor” (2007) da própria Lucia Murat. Parece um outro filme, composto apenas pelos mesmos agentes – parece haver um potencial para existir dois documentários e não apenas um. Já tratamos dessa transição entre o documental e o ficcional em outras críticas de obras da realizadora, como “Ana. Sem Título” (2020) e “Uma Longa Viagem” (2011). A diferença aqui é que se trata de um registro performático, sintetizador do processo de construção do próprio filme.

Enquanto coletividade, gerações mais jovens parecem ter o poder de dar aulas para os adultos. Letramento, maturidade e discursos articulados. À primeira vista, soa otimista a representação em obras como “Hora do Recreio”. O futuro nos dirá se essa abordagem laboratorial ganhará as ruas e não apenas fará do Brasil uma sociedade mais consciente, mas também se o coletivo politicamente engajado resultará em cidadãos sabendo aplicar esse conhecimento em prol da coletividade, enquanto protegem suas individualidades.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.